Negros:Uma Historia Reparada

A ideia de que é possível reparar o que aconteceu no passado longínquo do Brasil é muito aplausível.A começar pelo fato de que os escravos já morreram há muito tempo e nada mais pode reparar as vidas que foram gastas no trabalho, na pobreza e em incontáveis humilhações.

Dona Aquilina (Lola) Maria, 86 anos - Moradora do Quilombo Botafogo Caveira em São Pedro da Aldeia

A ideia de reparação não me lembra apenas Prudêncio, me lembra também os cuidados de
Carl Martius com aqueles “brancos” tão ciosos de sua prosápia (no Aurélio, significa tanto raça e linhagem quanto altivez e soberba). 
A idéia de que o negro é um personagem historicamente excluído parece coisa de gente que menospreza muito a nossa prosódia como povo. 
Na verdade, isso é uma invenção de sociólogos paulistas, nos anos 1950, que ficou guardada na estufa académica até recentemente, quando grupos de ativistas, políticos e intelectuais resolveram disseminá-la na sociedade em geral,no âmbito de um amplo e ambicioso projeto de reengenharia social, ao final do qual a sociedade brasileira terá substituído o orgulho da mestiçagem e da mistura pelo orgulho de ser negro ou de ser branco. As bases de uma sociedade bicolor, onde os brancos são responsabilizados pelo sofrimento dos negros, estão sendo montadas a todo momento…
Vivemos hoje, no Brasil, tempos parecidos com os últimos 25 anos do século XIX,quando uma onda racista se abateu sobre a nossa elite intelectual. Mais uma vez se torna plausível conferir legitimidade ao conceito de raça. A diferença está em que a onda agora dispõe de meios (que a precedente não possuía) de aplicar uma verdadeira pedagogia racista em ampla escala,pois conta com uma mídia que chega a todo canto e já faz até ministério – a SEPIR.
Não é nada razoável ressuscitar a idéia de raça e conferir-lhe legitimidade académica e social.
Na versão mais sofisticada deste empreendimento,argumenta-se que quando se diz “raça”,não se fala de raça biológica, mas de crenças raciais que perpassam a sociedade brasileira e prejudicamos indivíduos de pele preta. Certamente,crenças raciais existem, como existem as que se referem à sexualidade, que punem os gays, como existem as que ofendem os “Paraíbas” no Sudeste do país, as que se abatem sobre os evangélicos etc. Mas a maior parte dos brasileiros não é racista,nem o racismo é um elemento estrutural na produção das desigualdades sociais na nossa sociedade.
Crenças estúpidas sempre existem por aí, para atentar o juízo da nossa imperfeita humanidade.
Mas as crenças raciais encontram um grande obstáculo no Brasil: uma generalizada vergonha de ser racista. Florestan Fernandes, o decano daqueles sociólogos paulistas que inventaram o negro excluído (eles inventaram também que o escravo era estúpido ao ponto de achar de si o que o senhor
achava dele) concluiu que “o brasileiro tem preconceito de ter preconceito”. 
Tem vergonha,acha feio, acha errado, acha pecado. Provavelmente este foi o maior legado que nos deixou aquela população parda e preta, livre.
Não é nada sensato lutar contra crenças raciais legitimando a idéia de raça e incitando o orgulho racial. A idéia de raça é intrinsecamente má, foi concebida para discriminar, hierarquizar e oprimir. Só se presta para isso. Se tais crenças raciais ainda existem entre nós, o certo é fazer como fizeram os nossos antepassados: desmoralizá-las ao ponto de poder confiná-las na jaula da vergonha.O Brasil é muito mal contado nas nossas escolas.A nossa história não é só feita de infâmias.Há boas tradições a serem preservadas. A vergonha de ser racista é das melhores. Provavelmente,como já disse, devemos essa tradição aos africanos e descendentes – eles é que tiveram que se virar, que encontrar uma solução à discriminação, à intolerância. Não merecíamos esse destino, de sermos perguntados, pela televisão,onde cada um de nós esconde o próprio racismo. “Essa é a pedagogia do racismo. Quer obrigar todo mundo a se confessar racista, a se conceber racista, a se tornar racista. É tudo muito insensato. Eu, que não sou tão diferente assim dos demais brasileiros, não escondo racismo algum, simplesmente não sou racista”

Por:JOSÉ ROBERTO PINTO
DE GÓES

Historiador
zroberto@uol.com.br

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Esta entrada foi publicada em abril 6, 2011 às 1:17 am e está arquivada sob Machado de Assis, nasceu escravo, rubro negro. Guarde o link permanente. Seguir quaisquer comentários aqui com o feed RSS para este post.

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