Sou Fruto da Miscigenação Brasileira

 Depoimento de André Novaes  
Sou um dos muitos brasileiros miscigenados descendentes de outros seres humanos igualmente miscigenados, que compõem a maioria de uma etnia única que se formou como identidade do povo Brasileiro.
“Existem morenos com olhos azuis, negros com verdes, mulatos com cor-de-mel, ou o inverso ou a mistura disso tudo. Há negros com cabelos lisos, brancos com encaracolados, crespos ou ondulados, mestiços de pele clara com cabelo “ruim”, albinos negros e albinos brancos, morenos escuros com cabelo ‘bom’ ou o inverso e a mistura disso tudo.” Cidadãos brasileiros, assim como eu, fruto da miscigenação brasileira.
A maioria dos brasileiros hoje é uma mistura de afrodescendentes e eurodescententes ao mesmo tempo, independentemente da cor da sua pele. Somos um povo em que uns têm maior ou menor grau de ancestralidade africana e européia, e outra parcela ainda com ancestralidade ameríndia. Uns, com mais melanina na pele, outros intermediários, outros com menos, e ainda alguns até desprovidos de melanina. Todos cidadãos brasileiros.
Mas nada disso significa que a quantidade de melanina defina a “raça” de alguém. Assim como pelo fator da ancestralidade européia não se pode definir como o parâmetro social do Brasil, nem porque, por se por ter uma maior parte de ancestralidade africana, seja motivo de reparação histórica para aqueles que se autodeclaram afrodescendentes e por isso precisam ser privilegiados por políticas raciais, 120 anos após a libertação dos escravos, historicamente vistos até hoje como ‘infelizes para sempre’, e nem outros que, só por terem parte de sua ancestralidade indígena, por ascendência ameríndia, tenham direitos a pleitear reparação territorial do governo federal.
E muito melhor pensar desta forma, do que pensar ser um objeto de preconceito e reclamar direitos exclusivos como descendente de uma “raça”, que pode perpetuar o objeto e seus privilégios, ou pior, o inverso deste, passar a ser gerador do pensamento de um preconceito invertido, a partir de um conceito irreal de “raça”. Digamos NÃO ao preconceito em todas as suas formas e formemos nossa própria identidade de cidadania!
Na contra-mão deste modo de pensar está o ideal político que vem contaminando uma parte da sociedade que pretende dividir o nosso povo e a nossa cultura por suas diferenças que, em nome de uma suposta “igualdade racial”, que todos, os mais intelectualizados e informados, sabem que não existe porque não existe o objeto dessa igualdade: a “raça”. Assim se promovem desigualdades, a desunião e a segregação, criando a possibilidade de se definir os direitos dos indivíduos, diferenciados, pela cor da sua pele.
Isto é uma armadilha política que só interessa aos que estão no poder, para mascarar a sua própria incompetência em não conseguir aplicar políticas púbicas efetivas, que em médio e longo prazo, possam realmente melhorar e desenvolver um ensino público igualitário e transparente, sem diferenças sociais e raciais, o que é direito de todos, sem discriminação de cor, raça, sexo, religião, etc. e assim desenvolver a igualdade dos cidadãos, não a igualdade racial, e sim a igualdade do exercício da cidadania. O governo não faz a sua parte e quer, por meio de leis raciais, excluir direitos de uns em benefícios de outros, que já estão ‘excluídos’ exatamente em razão da sua própria, e histórica, incompetência governamental. No final, será esta a conclusão a qual chegaremos.
O maior equívoco de alguns movimentos negros e de afrodescendentes, assim como de racialistas que apóiam até criação de polícias e delegacias raciais, é tentar descaracterizar a identidade de todo um povo como ela realmente é: uma sociedade de origem multi-étnica miscigenada, onde a mestiçagem já começou com a vinda do próprio português branco (que já chegou aqui miscigenado geneticamente pela mistura do branco nórdico com o latino e com o moreno dos mouros).
Creio que em nossa terra, inicialmente, após a chegada dos portugueses, a miscigenação se deu nesta ordem: primeiro, entre o branco e índio, depois, com a vinda do negro, entre o negro e o índio, só depois ocorreu o cruzamento entre o branco e o negro.
Depois, cruzaram-se brancos com mulatos, negros com mulatos, e estes com caboclos, e com cafuzos, e todos estes mestiços diretos com os já miscigenados por cruzamentos anteriores com os outros três grupos étnicos que poderia se chamar de “originais”: índios, brancos e negros, nesta ordem. Enfim, depois de tanta miscigenação, ainda todos esses grupos, já multi-étnicos e miscigenados, cruzaram-se com holandeses no nordeste, e depois com imigrantes germânicos, italianos, árabes, judeus, amarelos, etc.
Agora, em pleno Séc. XXI, finalmente chegamos a uma identidade única brasileira, exemplo de miscigenação para o mundo inteiro, que não mais condiz com o conceito racialista  de que existem duas, três ou quatro “raças” no Brasil, este argumento apenas promove as diferenças enquanto divide a identidade dos brasileiros no conceito simplista e ultrapassado de “raça”.
Até porque, me arrisco a dizer que, se enfileirarmos um grande grupo de brasileiros pela cor de sua pele, desde o mais escuro dos negros até o mais claro dos brancos, encontraremos uma gradação tonal quase infinita de tons de pele e outras características físicas – que definiriam “raças” – entre as pessoass, que seria quase que impossível de se distinguir dentre as nuances tonais qual é o “parecido” e qual é o “diferente”, pontuar o exato grau de tonalidade cutânea que separa uns dos outros, classificando-os em somente três ou quatro tipos de categorias raciais, ou “raças”. Qualquer classificação por “raça” ou pelo princípio da cor da pele no Brasil é discriminatória, preconceituosa e equivocada. O que vem confrontar os princípios democráticos insculpidos nos preâmbulos constitucionais…


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Esta entrada foi publicada em dezembro 2, 2011 às 11:59 am e está arquivada sob caboclo, depoimento, etnia, genero, indio, melanina, mestiço, minha cor, minha pele escura, pardo, politica racial.preconceito, raça, sou mestiço, sou pardo. Guarde o link permanente. Seguir quaisquer comentários aqui com o feed RSS para este post.

2 opiniões sobre “Sou Fruto da Miscigenação Brasileira

  1. Que texto maravilhoso, acredito que ele seja a sintese de tudo que ja lemos aqui. Se eu tivesse que escrevê-lo nao mudaria uma virgula. Quando ele fala do preconceito invertido, é uma realidade que eu e Livia conhecemos bem. Livia o sofre por ser negra e defender a igualdade e liberdade das pessoas para amar e gostar de quem ou o que quiser sem que isto seja ditada por uma cultura baseada na cor da pele. Eu porque sou branca, não posso opnar em grupos negros e quando minha opnião não é igual sou chamada de SUA BRANCA, como que se a luta fosse contra os brancos e não contra os racistas. O que me amedronta é que as crianças, sejam brancas ou negras, que ficam no meio desses racistas de todas as cores, são os depositários desta raiva que não tem razão de ser.Ja disse anteriormente que não creio que se combate segregação com mais segregação. As cotas por exemplo demonstra isto; o fato delas existirem, não repara nada, não muda as necessidade da maioria do povo e cria mais confusão. A luta é contra a miseria,o racismo, a favor da igualdade e que todos tenham seus direitos assegurados perante a lei. Não é paradoxal que haja na miséria brancos e negros e somente um deles são beneficiados por alguma política? A constituição diz somos todos iguais perante a lei, uma parte não pode exigir pra si o que é de todos, nem brancos podem ter prioridades sobre negros nem negros sobre brancos, a lei e a justiça deve se aplicar a todos para que possamos reclamar nosso direitos. Vou ser um pouco crua no que eu vou falar, mas passa-se a idéia de que agora para ficar em paridade deveriamso escravizar as outras etnias e assim seria saciada a "vingança". Não vejo um espírito de unidade e busca de justiça social nesta luta em relação a maioria, vejo muita raiva e isto não é o ideal.Deixo aqui um trecho do discurso de Matin Luther King, I Have a Dream que conhecemos muito bem e é tão atual que poderia ter sido dito hoje."Deixe a liberdade ressoar. Nos cumes das colinas prodigiosas do Novo Hampshire, deixe a liberdade ressoar. Nas montanhas poderosas de Nova York, deixe a liberdade ressoar. Nas elevações dos Alleghenies da Pensilvânia, deixe a liberdade ressoar. Mas não só isto; deixe a liberdade ressoar no Monte Stone da Geórgia. Deixe a liberdade ressoar em cada colina e até nos montículos de terra das toupeiras do Mississippi.E quando isto acontecer, quando nós a deixarmos ressoar, vamos nos apressar para aquele dia quando nós, todos os filhos de Deus, homens pretos e homens brancos, judeus e pagãos, protestantes e católicos, seremos capazes de nos dar as mãos e cantar as palavras do velho negro espiritual:————————————————————"Livre por fim, livre por fim /————————————————————Ainda somos escravos da intolerància, do ódio, da miseria humana. Quero que o sonho dele que também é o meu aconteça, mas para isto florecer temos que plantar a sementinha e limpar a pragas que vão matar o jardim e impedir que floresça a beleza.Viva a raça humana, viva os povos d mundo, e viva este blog que da a oportunidade de termos uma voz, a da união.

  2. Em busca da liberdade !!Que a nossa cor nao seja arma de justificava para feridas existências e sociais…Liberdade para sermos iguais como seres humanos…Liberdade para amar, Liberdade para sermos todos unidos e únicos no propósito de termos a nossa própria identidade e cultura…Somos UNICOS, somos TODOSS ETNIA BRASIL!!!Muito Obrigada Rosy, fico feliz em saber que existem pessoas capazes de expressar algo tao sincero e e claro de se sentir e compreender….

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